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| Créditos:CCGL |
Programa Gestores do Futuro, da CCGL, aposta em capacitação, tecnologia e gestão para preparar uma nova geração de produtores e enfrentar o desafio da sucessão rural
Por Cassiano Cortez | Editor — Correio Gaúcho
O futuro da produção de leite no Rio Grande do Sul passa por uma questão que vai muito além de máquinas, genética e produtividade: quem vai assumir as propriedades rurais quando a atual geração deixar o campo?
É diante desse desafio que a Cooperativa Central Gaúcha Ltda. (CCGL) vem investindo na formação de jovens para assumir funções estratégicas dentro das propriedades leiteiras.
O programa Gestores do Futuro foi criado justamente para preparar essa nova geração para uma atividade rural cada vez mais profissional, tecnológica e dependente de gestão.
A iniciativa combina capacitação técnica, administração financeira, manejo, qualidade do leite, tecnologia e planejamento da propriedade.
Sucessão rural deixa de ser apenas uma questão familiar
Durante décadas, a sucessão no campo foi tratada quase exclusivamente como uma transferência de patrimônio: o pai envelhece, o filho assume a propriedade.
O cenário mudou.
Hoje, uma propriedade rural precisa funcionar como uma empresa.
É necessário conhecer custos, produtividade, margem, investimentos, financiamento, tecnologia, mercado e gestão de pessoas.
O programa da CCGL trabalha justamente essa mudança de mentalidade.
A proposta é fazer com que os jovens deixem de ser apenas executores das tarefas da propriedade e passem a participar das decisões estratégicas do negócio rural.
18% de aumento na produção
Os primeiros resultados chamam atenção.
Segundo dados divulgados pela CCGL e repercutidos pelo MilkPoint, as propriedades participantes da primeira edição do programa, realizada em 2025, registraram crescimento médio superior a 18% no volume de leite produzido.
No mesmo período, a média de crescimento entre os demais produtores do sistema cooperativo ficou em aproximadamente 8%.
Outro balanço divulgado pela própria CCGL aponta aumento médio de aproximadamente 19% na produtividade leiteira entre os 162 participantes da primeira edição, contra cerca de 11,9% entre os produtores da cooperativa no mesmo período.
Os números ajudam a mostrar que capacitação não é apenas teoria.
Conhecimento pode virar produtividade.
De 162 para 305 jovens
O interesse pela iniciativa também cresceu rapidamente.
A primeira edição reuniu 162 participantes. Para o ciclo de 2026, o programa passou a acompanhar 305 jovens.
O salto mostra que existe uma nova geração interessada em permanecer no campo — mas que precisa encontrar condições para transformar a atividade rural em uma carreira viável.
Esse talvez seja um dos maiores desafios do agronegócio brasileiro.
Produzir mais não basta.
É preciso fazer com que a próxima geração queira continuar produzindo.
O campo está envelhecendo
O desafio não é exclusivo da cadeia leiteira.
Dados da PNAD Contínua mostram uma mudança importante no perfil etário da mão de obra rural brasileira.
No primeiro trimestre de 2026, trabalhadores com 55 anos ou mais representavam 23,86% dos ocupados na agropecuária, enquanto jovens de 16 a 22 anos correspondiam a 8,93%.
Em 2012, os jovens dessa faixa etária representavam aproximadamente 11,5% da mão de obra rural.
A diferença revela uma transformação silenciosa:
há mais trabalhadores envelhecendo no campo e menos jovens entrando na atividade.
E isso coloca a sucessão rural no centro das discussões sobre o futuro do agro.
Tecnologia pode ser a ponte entre gerações
Um dos diferenciais do Gestores do Futuro é justamente aproximar a nova geração das ferramentas tecnológicas.
Durante a formação, os jovens utilizam plataformas como o Smartcoop, que permite acompanhar informações e indicadores da propriedade.
A ideia é transformar dados em decisões.
Quanto custa produzir um litro de leite?
Qual é a produtividade por animal?
Onde estão os maiores gastos?
Qual é o retorno de determinado investimento?
Quanto a propriedade precisa produzir para aumentar a margem?
São perguntas que fazem parte de uma nova agricultura, na qual gestão e tecnologia caminham juntas.
A sucessão começa antes da herança
Um dos pontos mais importantes do projeto é justamente mudar a ideia de que sucessão acontece apenas quando uma propriedade passa oficialmente de uma geração para outra.
Na prática, ela começa muito antes.
Começa quando o filho participa das decisões.
Quando aprende a administrar.
Quando entende os números da propriedade.
Quando conhece o mercado.
Quando passa a enxergar o campo como profissão — e não apenas como obrigação familiar.
A CCGL trabalha a sucessão como um processo de preparação das pessoas e da propriedade para o futuro.
Jovem precisa enxergar futuro no campo
O grande desafio é tornar a atividade rural suficientemente atrativa para competir com as oportunidades oferecidas nas cidades.
O jovem de hoje tem acesso a tecnologia, universidades, profissões digitais, indústria, comércio e serviços.
Se o campo quiser manter essa nova geração, precisa oferecer também:
renda, tecnologia, qualidade de vida, profissionalização e perspectiva de crescimento.
É justamente nessa direção que iniciativas de formação de jovens produtores vêm ganhando espaço.
A própria Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) vem discutindo estratégias para fortalecer a juventude rural e a sucessão no campo.
O agro precisa formar seus próximos líderes
O Brasil construiu uma das maiores agriculturas do mundo.
Mas nenhuma potência agrícola sobrevive apenas com máquinas e terras.
É preciso ter gente preparada.
O produtor do futuro precisará dominar tanto o manejo quanto os números da propriedade.
Precisará entender tecnologia, mercado, sustentabilidade, logística, crédito e gestão.
E, principalmente, precisará estar preparado para tomar decisões.
No leite, esse desafio é ainda mais evidente porque a atividade exige acompanhamento constante e gestão precisa.
Um desafio para todo o Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, onde milhares de famílias dependem diretamente da produção agropecuária, a sucessão rural tem impacto econômico e social.
Quando uma propriedade deixa de produzir, o impacto não fica apenas dentro da porteira.
Afeta cooperativas, transportadores, fornecedores de insumos, agroindústrias, comércio local e municípios inteiros.
Por isso, manter jovens no campo também significa manter comunidades rurais economicamente vivas.
O futuro do leite será tecnológico — mas continuará sendo familiar
A tecnologia está mudando o campo.
Mas, no centro da propriedade, continua existindo uma família.
É ela que toma decisões, enfrenta períodos de preços ruins, investe, assume riscos e decide se a próxima geração continuará na atividade.
O programa Gestores do Futuro mostra que a sucessão pode ser planejada.
E os primeiros resultados indicam que qualificação e gestão podem produzir resultados concretos dentro da porteira.
O desafio agora é transformar iniciativas como essa em uma cultura permanente.
Porque o futuro do agro não será decidido apenas pela quantidade de hectares plantados ou pelo número de máquinas trabalhando.
Será decidido por uma pergunta muito mais simples:
haverá jovens preparados e dispostos a continuar produzindo?
No caso da CCGL, a resposta começa a ser construída dentro das próprias propriedades.
Correio Gaúcho — o campo, a economia e o futuro do Rio Grande do Sul.
Editor: Cassiano Cortez
Fontes
MilkPoint — reportagem sobre o programa Gestores do Futuro e os resultados da iniciativa.
CCGL — informações sobre o programa e resultados da primeira edição.
Coopatrigo — participação de produtores associados no Gestores do Futuro.
CNA — discussão nacional sobre juventude e sucessão rural.
CNN Brasil — dados sobre o envelhecimento da mão de obra rural.
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