| Imagem ilustrativa criada por IA |
Empreender virou uma aventura, os juros continuam altos, a dívida cresce e o cidadão sente que paga cada vez mais para receber cada vez menos. O Brasil tem recursos, agro, petróleo e uma das maiores economias do mundo — mas ainda convive com desperdício, burocracia, corrupção e um Estado caro
Por Cassiano Cortez | Editor — Correio Gaúcho
Existe uma pergunta que atravessa a vida de milhões de brasileiros: por que um país tão rico continua parecendo tão difícil para quem trabalha, empreende e tenta crescer?
O Brasil possui petróleo, gás, minério, terras agricultáveis, água, energia, biodiversidade e uma das agriculturas mais competitivas do planeta. Em 2025, o PIB chegou a R$ 12,7 trilhões, enquanto a agropecuária cresceu 11,7% no ano. Mesmo assim, o país continua enfrentando juros elevados, pressão fiscal, desigualdade, burocracia e uma sensação crescente de que o esforço de quem produz não se transforma na mesma velocidade em qualidade de vida.
O problema brasileiro não é simplesmente falta de riqueza.
É a dificuldade de transformar riqueza em prosperidade.
O empreendedor brasileiro parece correr uma corrida de obstáculos
Abrir uma empresa no Brasil muitas vezes significa assumir riscos pessoais, enfrentar burocracia, contratar funcionários, pagar impostos, cumprir obrigações trabalhistas e fiscais e, depois de tudo isso, tentar descobrir se haverá lucro.
É por isso que, para muitos pequenos empresários, empreender acaba parecendo uma espécie de aventura movida a coragem, necessidade e até teimosia.
A pessoa abre uma loja, uma oficina, uma pequena indústria, uma empresa de serviços ou trabalha por conta própria porque precisa criar uma alternativa de renda.
Mas existe uma contradição.
O Estado precisa arrecadar para financiar saúde, educação, segurança, Previdência e infraestrutura. Ao mesmo tempo, quanto maior o custo para produzir, contratar e investir, maior pode ser a dificuldade para o setor privado crescer e gerar empregos de qualidade.
Em 2025, a carga tributária bruta do governo geral alcançou 32,40% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. O número representa uma alta de 0,18 ponto percentual em relação a 2024.
E a arrecadação continua crescendo.
Entre janeiro e agosto de 2026, as receitas federais somaram R$ 2,112 trilhões, alta real de 7,12% sobre o mesmo período de 2025. Somente em agosto, foram R$ 235,566 bilhões.
A pergunta que fica para o cidadão é simples:
se o Estado arrecada mais, por que a sensação de aperto continua tão grande?
O trabalhador não sente apenas o imposto: sente o preço de tudo
A inflação oficial não está fora de controle, mas continua sendo uma preocupação.
O IPCA acumulava 4,22% em 12 meses até agosto de 2026, segundo o IBGE. No mesmo mês, houve deflação de 0,32%.
O problema é que inflação acumulada não significa que os preços tenham voltado ao passado.
Quando um alimento, aluguel, medicamento ou serviço sobe e permanece em um patamar mais elevado, o consumidor continua convivendo com aquele preço.
É aí que aparece uma das maiores frustrações do brasileiro:
o salário pode aumentar, mas o custo de viver também aumenta.
O desemprego caiu — e isso precisa ser reconhecido
Seria errado afirmar que o Brasil está vivendo uma explosão de desemprego.
Os dados oficiais mostram justamente o contrário.
No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego estava em 5,4%, com aproximadamente 5,9 milhões de pessoas desocupadas. A taxa de subutilização estava em 12,9%, enquanto 2,3 milhões eram classificados como desalentados.
No trimestre móvel encerrado em agosto, a desocupação chegou a 5,3%, enquanto o rendimento médio mensal real dos trabalhadores ocupados alcançou R$ 3.777.
Portanto, o problema não pode ser resumido a “não há empregos”.
A discussão mais difícil é outra:
quantos empregos permitem que uma família tenha uma vida confortável, consiga comprar uma casa, investir, poupar e construir patrimônio?
É nessa diferença entre ter trabalho e ter prosperidade que está parte da frustração brasileira.
Bolsa Família: a discussão não pode virar guerra entre brasileiros
O Bolsa Família atende milhões de famílias.
Em setembro de 2026, o programa alcançou 19,29 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 678,18. A partir de outubro, o valor mínimo passou para R$ 691.
É legítimo discutir o tamanho, o desenho e a eficiência dos programas sociais.
Mas também é necessário evitar uma conclusão simplista: não é correto dizer que todas as pessoas que recebem Bolsa Família não trabalham.
Existem beneficiários empregados, trabalhadores informais e famílias que transitam entre emprego, renda baixa e assistência social.
A questão econômica realmente importante é outra:
o benefício precisa funcionar como proteção contra a pobreza — e não como substituto permanente da oportunidade de trabalhar e aumentar a renda.
Um país saudável precisa combinar transferência de renda com educação, qualificação profissional, investimento, empreendedorismo, infraestrutura e geração de empregos produtivos.
O Brasil arrecada, mas a dívida também cresce
Aqui está um dos pontos mais preocupantes.
O Banco Central informou que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB em julho de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 10,9 trilhões.
A dívida líquida do setor público chegou a 69,1% do PIB, ou cerca de R$ 9,2 trilhões.
E existe outro número que impressiona ainda mais:
Nos 12 meses até julho, os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,1505 trilhão, equivalente a 8,67% do PIB.
É dinheiro que não constrói uma estrada.
Não planta uma lavoura.
Não abre uma escola.
Não cria uma empresa.
São recursos destinados ao custo financeiro da dívida.
E os juros?
Em setembro de 2026, o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano.
Ainda é um patamar extremamente elevado para uma economia que precisa aumentar investimento e produtividade.
Juros altos encarecem financiamento para empresas e famílias.
Uma empresa que poderia comprar máquinas pensa duas vezes.
Uma indústria que poderia ampliar sua fábrica calcula novamente.
Um agricultor que precisa financiar equipamentos olha para a taxa de juros.
Uma família que deseja comprar uma casa encontra parcelas maiores.
O dinheiro fica mais caro.
E quando o dinheiro fica caro, o investimento tende a ficar mais difícil.
O Brasil tem um agro gigantesco — mas ainda precisa investir mais
O agronegócio é uma das grandes forças da economia brasileira.
Em 2025, a agropecuária cresceu 11,7%, alcançando R$ 775,3 bilhões em valor corrente. A produção de milho cresceu 23,6%, enquanto a soja avançou 14,6%, ambas com recordes na série histórica do IBGE.
O Brasil também possui petróleo, gás e uma enorme base mineral.
Mas riqueza natural não é suficiente.
Um país rico em recursos naturais pode continuar pobre se não transformar recursos em produtividade, infraestrutura, tecnologia, indústria, educação e renda.
Esse é um dos grandes desafios brasileiros.
O escândalo do INSS mostrou que o problema também é gestão
Talvez nenhum episódio recente tenha simbolizado tanto a sensação de abandono quanto a fraude envolvendo descontos associativos em aposentadorias e pensões.
A Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, identificou descontos não autorizados em benefícios.
A AGU informou que as investigações apontavam inicialmente para valores que poderiam chegar a R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos entre 2019 e 2024. O órgão pediu ainda o bloqueio de R$ 2,56 bilhões em bens de entidades investigadas.
O tamanho do problema é brutal.
Em dezembro de 2025, o INSS registrava mais de 6,3 milhões de pedidos de contestação, dos quais mais de 6,2 milhões correspondiam a beneficiários que não reconheceram os descontos.
Em junho de 2026, o governo informou que já havia devolvido mais de R$ 3,2 bilhões a 4,7 milhões de beneficiários.
Isso não significa que o INSS esteja matematicamente “à beira do colapso”.
Mas significa algo igualmente grave:
o Estado falhou em impedir que milhões de aposentados tivessem dinheiro retirado de seus benefícios sem autorização.
E quando isso acontece, a confiança do cidadão nas instituições sofre.
O verdadeiro perigo pode ser a perda da confiança
Uma economia não vive apenas de números.
Ela vive de expectativas.
O empresário precisa acreditar que vale a pena investir.
O trabalhador precisa acreditar que seu salário poderá crescer.
O jovem precisa acreditar que estudar e trabalhar permitirão construir uma vida melhor.
O agricultor precisa acreditar que haverá crédito e infraestrutura.
O aposentado precisa acreditar que sua renda estará protegida.
E o cidadão precisa acreditar que o dinheiro arrecadado pelo Estado será utilizado corretamente.
Quando essa confiança desaparece, o país começa a andar para trás mesmo quando alguns indicadores econômicos melhoram.
O sistema financeiro brasileiro está quebrado?
Não.
Essa é uma distinção fundamental.
O diagnóstico atual não aponta para um colapso do sistema financeiro.
O FMI classificou o setor financeiro brasileiro como resiliente, com riscos sistêmicos contidos. Ao mesmo tempo, o organismo alertou para a necessidade de colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável e ampliar o esforço fiscal para abrir espaço para investimentos prioritários.
Ou seja:
o sistema financeiro não está implodindo — mas existem sinais de pressão fiscal que não podem ser ignorados.
A dívida elevada, os juros altos e o custo de financiamento do governo formam uma combinação que reduz o espaço para investimentos públicos e privados.
O Brasil não precisa de milagre. Precisa funcionar melhor.
O país não precisa descobrir petróleo.
Já descobriu.
Não precisa descobrir terras agricultáveis.
Já possui algumas das maiores áreas agrícolas do planeta.
Não precisa descobrir minério.
Possui alguns dos maiores depósitos minerais do mundo.
Não precisa descobrir agro.
Já é uma potência mundial.
O Brasil precisa transformar essas vantagens em produtividade, renda, infraestrutura, educação, tecnologia e oportunidades.
Precisa diminuir o desperdício.
Combater a corrupção.
Aumentar a eficiência do Estado.
Reduzir burocracias desnecessárias.
Criar um ambiente em que uma pequena empresa consiga crescer sem ser esmagada por custos e complexidade.
E precisa discutir seriamente a trajetória das contas públicas.
Um país cansado de trabalhar sem conseguir avançar
Existe uma imagem que resume o sentimento de parte da população:
o brasileiro trabalha, paga imposto, enfrenta juros, paga contas e tenta empreender — mas continua esperando a prosperidade chegar.
Enquanto isso, bilhões de reais são consumidos pelo serviço da dívida, programas sociais precisam sustentar milhões de famílias, casos de fraude atingem aposentados e a máquina pública continua exigindo cada vez mais recursos.
O Brasil não é um país pobre.
É um país que ainda não conseguiu transformar toda a sua riqueza em riqueza distribuída, produtividade e qualidade de vida.
E talvez essa seja a maior emergência nacional:
não a falta de recursos.
A falta de eficiência para transformar recursos em futuro.
A avaliação do Correio Gaúcho
Economia: 🟡 Resiliente, mas pressionada.
Emprego: 🟢 Desemprego em nível historicamente baixo, embora ainda exista subutilização e informalidade.
Inflação: 🟡 Controlada em relação a períodos de forte inflação, mas ainda acima da meta de 3% no horizonte considerado pelo FMI.
Juros: 🔴 Muito elevados, dificultando crédito e investimento.
Dívida pública: 🔴 Ponto de atenção, com dívida bruta em 82,5% do PIB em julho.
Sistema financeiro: 🟢 Resiliente segundo o FMI, sem indicação de colapso sistêmico.
Contas públicas: 🔴 Pressão elevada pelo custo dos juros e pelo crescimento da dívida.
Empreendedorismo: 🟡 Grande potencial, mas condicionado por impostos, burocracia, crédito caro e ambiente regulatório.
Agro: 🟢 Uma das maiores forças competitivas do Brasil.
INSS: 🔴 Forte desgaste institucional após o escândalo dos descontos associativos, embora isso não signifique, por si só, insolvência do sistema.
Diagnóstico final: o Brasil possui recursos e capacidade produtiva extraordinários, mas precisa transformar arrecadação em serviços eficientes, reduzir desperdícios, melhorar o ambiente de negócios e colocar a dívida em trajetória sustentável.
Correio Gaúcho — informação, economia e análise do Brasil real.
Editor: Cassiano Cortez
Correio Gaúcho
0 Comentários