Investigação: homicídios caem, mas golpes digitais, feminicídios e mortes policiais expõem falhas na segurança pública brasileira

 

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Levantamento de dados oficiais revela uma crise com várias faces: o país registra menos mortes violentas, mas enfrenta recordes em crimes específicos, dificuldades de investigação e impactos econômicos que chegam à rotina das famílias.

Reportagem especial | Segurança pública

Redação Correio Gaúcho
Data: 19 de outubro de 2026

O Brasil registrou uma redução nas mortes violentas em 2025, mas os números mais recentes da segurança pública revelam uma realidade que não pode ser resumida por uma única estatística. Enquanto os homicídios e outros crimes letais recuaram, os feminicídios aumentaram, as mortes decorrentes de intervenções policiais atingiram um recorde e as fraudes digitais se consolidaram como uma das principais ameaças ao patrimônio dos brasileiros.

A análise documental do Correio Gaúcho, baseada no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, em estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e em levantamentos publicados por instituições e veículos de imprensa, identifica três questões centrais: a capacidade do Estado de prevenir crimes, a efetividade das investigações e a dificuldade de transformar registros policiais em responsabilização dos autores.

Os dados não permitem afirmar que todos os tipos de criminalidade estejam aumentando. O que revelam é um cenário desigual, no qual a melhora de alguns indicadores convive com problemas persistentes e novas modalidades de violência.

1. Mais de 40 mil mortes violentas em um ano

O Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2026.

O número representa uma queda de 8,2% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 44.127 mortes. A taxa nacional passou de 20,6 para 19,1 mortes por 100 mil habitantes, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012.

A categoria reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, mortes decorrentes de intervenções policiais e mortes de policiais.

O resultado é relevante, mas não significa que a segurança pública esteja resolvida. A média nacional esconde diferenças entre estados, municípios e modalidades criminais. Também não mede, isoladamente, roubos, golpes, violência doméstica, extorsões ou a capacidade de esclarecer crimes.

A primeira constatação desta investigação é, portanto, que a redução das mortes violentas não representa uma redução uniforme de todas as formas de criminalidade.

Fonte: Agência Brasil — Mortes violentas caem 8,2% no país em 2025.

2. Feminicídios: quatro mulheres mortas por dia

Apesar da redução geral das mortes violentas, os feminicídios seguiram na direção contrária.

O Anuário de 2026 registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, uma média de aproximadamente 4,3 mulheres assassinadas por dia. O total representa alta de 4% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica utilizada pelo levantamento.

O estudo também contabilizou 4.189 tentativas de feminicídio, crescimento de 5,9% em comparação com 2024.

Outro dado chama atenção: 44,4% das mulheres assassinadas no país em 2025 foram vítimas de feminicídio, isto é, mortes relacionadas à violência de gênero nos termos da legislação.

Os números levantam uma questão fundamental para as políticas públicas: até que ponto os serviços de proteção conseguem identificar situações de risco antes que a violência termine em morte?

A existência de boletins de ocorrência, ameaças ou pedidos de proteção não significa automaticamente que um assassinato poderia ter sido evitado. Cada caso exige investigação própria. Entretanto, a recorrência de agressões e ameaças demonstra a importância de avaliar a rapidez das respostas, o cumprimento de medidas protetivas e a articulação entre polícia, Justiça e serviços de atendimento.

A investigação documental não permite medir, sozinha, quantas mortes poderiam ter sido evitadas por uma intervenção anterior. Para responder a essa pergunta, seria necessário examinar processos, histórico de denúncias, medidas protetivas e eventuais falhas institucionais em cada caso.

Fonte: CNN Brasil — Brasil bate recorde de feminicídios pelo quarto ano seguido.

3. Letalidade policial cresce mesmo com a queda geral da violência

Outro dado que exige atenção é o número de pessoas mortas em intervenções policiais.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, as mortes decorrentes de intervenção policial chegaram a 6.602 em 2025, aumento de 5,4% em relação a 2024. Foi o maior total da série histórica citada pelo levantamento.

Na prática, isso significa que a redução da violência letal não foi acompanhada por uma queda em todas as categorias de mortes. A letalidade policial aumentou enquanto o conjunto das mortes violentas intencionais diminuiu.

Esses números, isoladamente, não permitem classificar todas as ocorrências como ilegais ou justificar todas as ações policiais. Cada intervenção precisa ser analisada conforme as circunstâncias, os protocolos de uso da força e as evidências disponíveis.

O desafio institucional é garantir que mortes em operações sejam investigadas de maneira independente e transparente, com preservação de provas, perícias e divulgação de informações compatíveis com o andamento dos procedimentos.

O acompanhamento de câmeras corporais, a identificação dos agentes envolvidos, a publicação de dados comparáveis e a fiscalização externa são instrumentos que podem contribuir para a prestação de contas.

A questão central não é escolher entre segurança da população e atuação policial. É estabelecer mecanismos capazes de proteger a sociedade, os próprios agentes e os direitos de todas as pessoas envolvidas.

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública — 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

4. Fraudes digitais: 2,2 milhões de registros e um desafio para a investigação

A criminalidade também mudou de forma. Nem todos os crimes exigem a presença física de um agressor, e parte das vítimas perde dinheiro por meio de mensagens falsas, ligações fraudulentas, perfis clonados e outras modalidades de estelionato.

Dados do Anuário de 2026, repercutidos pela Folha de S.Paulo, apontam 2,2 milhões de ocorrências de estelionato registradas em 2025, o equivalente a aproximadamente 258 registros por hora.

O total representa um aumento de 429% em relação a 2018, primeiro ano da série histórica citada. Em comparação com 2024, a alta foi de 3,1%.

A dimensão do problema não se resume ao número de boletins. Segundo os dados publicados, os Ministérios Públicos estaduais instauraram 63,7 mil ações penais relacionadas ao estelionato em 2025. No mesmo período, 4.189 pessoas passaram pelo sistema prisional por esse crime, incluindo presos provisórios e condenados.

Esses números não devem ser tratados como uma taxa direta de impunidade. As ocorrências registradas, as ações penais e as entradas no sistema prisional são medidas diferentes, que podem envolver períodos, casos e etapas processuais distintos. Uma comparação rigorosa exigiria acompanhar os mesmos casos desde o registro até o desfecho judicial.

Ainda assim, a diferença de escala indica uma área que merece investigação pública: a capacidade de identificar autores, rastrear transferências financeiras, preservar evidências digitais e coordenar investigações entre estados.

Entre as perguntas que precisam ser respondidas estão:

  • Quantos registros têm autoria identificada?

  • Quantos inquéritos são concluídos com indiciamento?

  • Quantas denúncias resultam em condenação?

  • Quanto dinheiro é recuperado e devolvido às vítimas?

  • Quais obstáculos técnicos e jurídicos atrasam as investigações?

Sem uma base pública integrada que acompanhe essas etapas, fica mais difícil avaliar quais políticas de combate às fraudes produzem resultados concretos.

Fonte: Folha de S.Paulo — Pesquisa mostra custo da insegurança na rotina das famílias.

5. A criminalidade também pesa no orçamento das famílias

O impacto da violência vai além das perdas diretamente causadas pelos criminosos.

Pesquisa encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e realizada pelo PoderData, com 2.411 entrevistados em 658 municípios, mostrou que 77% dos participantes afirmaram que a insegurança gera custos adicionais para suas famílias.

O levantamento, realizado por telefone entre o final de julho e o início de agosto de 2026, apontou gastos relacionados a golpes, segurança patrimonial e deslocamentos considerados mais seguros.

Entre os entrevistados, 35% relataram prejuízos com golpes ou fraudes, 13% disseram ter gastado com segurança da casa ou do carro e 12% mencionaram despesas com transportes mais caros para evitar riscos.

A pesquisa também identificou consequências sobre decisões profissionais e de consumo. Parte dos participantes relatou ter recusado oportunidades de trabalho, deixado de frequentar determinados estabelecimentos ou reduzido despesas familiares em razão da insegurança.

Por se tratar de uma pesquisa de opinião, os percentuais refletem as respostas dos participantes, não uma contagem nacional de crimes comprovados. Ainda assim, os resultados demonstram como o medo da violência pode alterar hábitos, despesas e oportunidades econômicas.

Quando famílias precisam destinar recursos à proteção, ao transporte alternativo ou à reposição de dinheiro perdido em fraudes, a insegurança também se transforma em um problema econômico.

Fonte: Folha de S.Paulo — Pesquisa sobre os custos da insegurança.

6. A desigualdade territorial impede uma leitura única do país

A criminalidade brasileira não se distribui de maneira uniforme. Os indicadores de violência letal variam entre estados e municípios, refletindo diferenças demográficas, sociais, econômicas e institucionais.

O Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 42.590 homicídios em 2024, com taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, uma queda de 7,4% em relação a 2023.

O mesmo estudo alertou para a possibilidade de subnotificação e problemas na qualidade dos registros. Por isso, os dados do Atlas e os do Anuário não devem ser misturados sem considerar suas fontes e definições: o primeiro utiliza principalmente registros de mortalidade do sistema de saúde; o segundo reúne informações de segurança pública e categorias próprias de mortes violentas intencionais.

Essa diferença metodológica é decisiva. Uma investigação responsável precisa esclarecer se está comparando homicídios registrados no sistema de saúde, ocorrências policiais ou o conjunto de mortes violentas intencionais.

Também é necessário observar taxas por população, e não apenas números absolutos. Estados mais populosos podem registrar mais ocorrências em números totais sem necessariamente apresentar a maior taxa proporcional.

Fonte: Ipea — Atlas da Violência 2026.

7. O que os dados ainda não respondem

O levantamento identifica sinais importantes, mas também expõe lacunas que precisam ser preenchidas para avaliar a efetividade do sistema de segurança pública.

Autoria e esclarecimento de crimes: os números nacionais de ocorrências não permitem saber, por si só, quantos crimes foram esclarecidos. É necessário reunir dados sobre inquéritos concluídos, denúncias, julgamentos e condenações.

Reincidência e prevenção: sem acompanhar os casos e os resultados das políticas de prevenção, não é possível determinar quais intervenções reduzem a repetição dos crimes.

Recuperação de valores: no estelionato digital, é importante medir não apenas prisões e processos, mas também o dinheiro recuperado, o tempo de resposta e a capacidade de interromper redes de fraude.

Proteção de mulheres: a análise de feminicídios precisa considerar o histórico de ameaças, agressões, medidas protetivas e respostas institucionais em cada caso, sem presumir que todos os crimes poderiam ter sido evitados da mesma forma.

Fiscalização da atividade policial: os dados de letalidade devem ser acompanhados de informações sobre perícias, investigações independentes e conclusões dos procedimentos, respeitando o devido processo legal.

Essas informações são fundamentais para diferenciar ações que produzem resultados verificáveis de medidas que apenas ampliam operações ou anúncios públicos sem demonstrar seu impacto sobre a criminalidade.

Conclusão: menos mortes não significam uma crise resolvida

Os indicadores de 2025 mostram um avanço importante na redução das mortes violentas no Brasil. Entretanto, o crescimento dos feminicídios, o recorde de mortes por intervenção policial e a expansão das fraudes digitais demonstram que a criminalidade exige respostas específicas para cada modalidade.

A investigação documental também revela uma limitação: sem dados integrados sobre esclarecimento de crimes, responsabilização, recuperação de valores e prevenção, o país não consegue avaliar plenamente a distância entre registrar uma ocorrência e oferecer uma resposta efetiva à vítima.

A segurança pública não pode ser medida apenas pelo número de prisões, operações ou homicídios. É necessário verificar se os crimes são prevenidos, se as vítimas recebem proteção, se as provas são investigadas, se os responsáveis são submetidos à Justiça e se as políticas adotadas reduzem os riscos ao longo do tempo.

O principal desafio é transformar estatísticas em prestação de contas. Para isso, governos, polícias, Ministério Público, Judiciário e órgãos de controle precisam disponibilizar dados comparáveis, transparentes e capazes de mostrar não apenas quantos crimes ocorreram, mas também o que foi feito depois de cada registro.

Fontes consultadas

Editor: Cassiano Cortez — Correio Gaúcho



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