O alerta do campo: recuperação judicial no agro expõe fragilidade do crédito rural

 

O agronegócio brasileiro sempre foi apresentado como a locomotiva da economia nacional. Safras recordes, exportações bilionárias e protagonismo global transformaram o campo em um dos pilares do crescimento do país. No entanto, um dado divulgado recentemente pela Serasa Experian acende um sinal de alerta que não pode ser ignorado.

Em 2025, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram 56,4%, chegando a 1.990 solicitações em todo o Brasil. Trata-se do maior número já registrado na série histórica. Por trás desse número estão produtores rurais, empresas da cadeia agrícola e famílias inteiras que dependem da atividade no campo.

O paradoxo é evidente: o Brasil colhe grandes safras, mas muitos produtores enfrentam dificuldades financeiras. O aumento no custo de fertilizantes, defensivos, combustíveis e maquinário, somado a juros elevados e restrição no crédito, tem comprimido a margem de lucro do produtor rural. Em muitos casos, a produtividade cresce, mas o caixa não acompanha.

No Rio Grande do Sul, a situação ganha contornos ainda mais delicados. Nos últimos anos, os produtores gaúchos enfrentaram uma sequência de eventos climáticos extremos — estiagens prolongadas seguidas por enchentes históricas. O resultado foi perda de produção, aumento do endividamento e dificuldades para honrar financiamentos assumidos em safras anteriores.

Regiões agrícolas importantes do estado, como Passo Fundo, Cruz Alta e o Planalto Médio, convivem hoje com um cenário de incerteza financeira no campo. Embora o produtor gaúcho tenha tradição de resiliência e inovação, a pressão sobre o crédito rural e o custo de produção tem colocado muitos em situação delicada.

A recuperação judicial, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento jurídico e passa a ser um termômetro da saúde financeira do agronegócio. Quando esse número cresce de forma acelerada, o sinal é claro: algo precisa ser revisto na estrutura de financiamento da produção rural.

O Brasil precisa discutir com seriedade juros do crédito rural, ampliação do seguro agrícola e políticas que deem previsibilidade ao produtor. Sem isso, o risco é transformar o setor mais competitivo da economia em um segmento cada vez mais pressionado por dívidas.

O campo brasileiro continua forte. Mas os números mostram que a prosperidade do agro não pode ser medida apenas pelo tamanho da safra — e sim pela sustentabilidade financeira de quem produz.C

Cassiano Cortez - Correio Gaúcho

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