Após três transações recentes, expectativa no segmento é de mais negócios em 2026
A recente onda de aquisições no mercado brasileiro de queijo pode estar apenas no começo. Dinâmica semelhante já havia acontecido no primeiro semestre do ano passado, e a expectativa de analistas e fontes desse mercado é de que novos negócios sejam anunciados ainda em 2026.
Três operações envolvendo alguns dos maiores laticínios brasileiros e uma indústria multinacional, entre outubro de 2025 e o início deste ano, refletem oportunidades de negócios, mas também o interesse no potencial de crescimento desse mercado no país.
Em outubro do ano passado, a Tirolez anunciou a aquisição da Levitare, líder na produção de queijo de búfala em São Paulo. No fim de dezembro, foi a vez da francesa Savencia Fromage & Dairy, dona da marca Polenghi, anunciar a aquisição da Quatá Alimentos, uma das principais produtoras de queijos semiduros e azuis do país. Já o Grupo Piracanjuba divulgou a compra da Basel Lácteos, fabricante de queijos finos sediada em Antônio Carlos (MG), no fim de janeiro deste ano.
Nos três casos, as aquisições foram aprovadas sem ressalvas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Os valores envolvidos não foram divulgados.
Na avaliação de Fabio Scarcelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abiq), o movimento de aquisições deve continuar este ano. “Quando essas empresas são incorporadas, elas recebem uma injeção tanto de tecnologia como de recursos para aumentar sua produção, sua capacidade e sua tecnologia”, avalia.
Não é por acaso que algumas dessas aquisições se deram em mercados de nicho. Diferentemente dos produtos “commoditizados” — como o leite líquido e o queijo muçarela —, os queijos finos ou para food service permitem às empresas obter margens maiores porque não há a mesma necessidade de preços baixos para competir.
“A indústria busca um mercado que tenha um potencial grande para crescer e margens mais interessantes do que outros mercados mais comoditizados, onde ela vai brigar por mercado basicamente via preço”, afirma Valter Galan, sócio da consultoria Milkpoint.
Um fator que estimula o movimento das empresas é o potencial de crescimento do consumo doméstico de queijo, segundo analistas. O brasileiro consome por ano cerca de sete quilos de queijo, enquanto que em países vizinhos, como Argentina e Uruguai, esse índice é pelo menos o dobro. Na França, por exemplo, o consumo per capita chega a 25 quilos, diz Scarcelli.
“Inclusive empresas estrangeiras que estão vindo para o Brasil enxergam um potencial de crescimento no consumo de queijo muito grande", acrescenta. "O pessoal já está mais acostumado com queijo lá na Europa do que aqui, mas eu não tenho dúvidas de que (o consumo) vai continuar crescendo e mais aquisições ocorrerão”, completa.
Foi a decisão de que não poderia “ficar para trás” num mercado crescente que levou a Piracanjuba a adquirir a Basel Lácteos. Até então o laticínio, um dos maiores na captação de leite no Brasil, não atuava em queijos finos.
“A tendência é de que o consumo per capita aumente nos próximos anos, e é um movimento natural de consolidação das empresas. Outras empresas também estão se movimentando, procurando essas oportunidades, e o Grupo Piracanjuba entende que não pode ficar para trás", afirma o diretor comercial, Gustavo Afonso de Almeida.
Segundo ele, os próximos meses serão dedicados à integração da Básel à estrutura do grupo, dos colaboradores e do portfólio de produtos. A queijaria tem unidade industrial na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, região considerada estratégica para a produção de queijos finos devido a características como altitude e qualidade da matéria-prima.
Almeida diz que não há novas aquisições programadas. Porém, ressalta que “se surgir alguma oportunidade, a empresa vai estar preparada para analisar”.
A Tirolez, que fez sua primeira aquisição em 45 anos de história, também segue em busca de oportunidades. Depois da compra da Levitare, outros negócios estão no radar, disse à reportagem o CEO Marcel de Barros, no início de fevereiro.
“O ano passado foi um ano bastante difícil para o setor. Com essas taxas de juros, algumas empresas acabam optando por entrar no mercado e eventualmente vender o negócio. Então surgiram muitos negócios públicos, que já foram anunciados, e muitos que estão em gestação. Para o setor, para quem tem uma posição sólida e uma estrutura de capital adequada, surgem oportunidades, e é atrás dessas oportunidades que nós da Tirolez estamos indo”, disse.
Questionada pela reportagem sobre a aquisição da Quatá, a francesa Savencia se manifestou por nota. “O portfólio inovador e de alta qualidade das duas empresas é complementar e está conectado com o paladar dos brasileiros. Esta operação reforça nosso compromisso com o bem-estar das pessoas, segurança alimentar, qualidade dos produtos e com a responsabilidade social, que também são valores da Quatá”, diz Augusto Lemos, CEO da Savencia Brasil.Na opinião de Valter Galan, da Milkpoint, as aquisições têm impactos positivos, uma vez que as compradoras tendem a acelerar seus processos de pesquisa e desenvolvimento e de lançamento de produtos. “É possível que você tenha uma oferta maior até de novos produtos com esse processo que está ocorrendo”, diz.
Pulverização e regionalização
Fábio Scarcelli vê risco baixo de concentração nesse mercado, mesmo com a consolidação. Um dos motivos é que o setor é pulverizado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 1,9 mil empresas no setor de lácteos do país. Mais de mil contam com inspeção federal.
Tampouco a consolidação deve levar ao desaparecimento de empresas regionais. “O Brasil é um país muito grande, com muitas diferenças regionais, então fica muito difícil uma empresa que esteja centralizada em Belo Horizonte atender Recife ou o Pará, por exemplo”, observa Scarcelli.
“Muitas delas (marcas regionais) têm uma força regional interessante e são reconhecidas regionalmente, então muitas tendem a permanecer, explorando esses mercados regionalizados onde elas são mais consolidadas”, acredita Galan, da Milkpoint. (Globo Rural via Valor Econômico)

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