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| Leite - Crédito Isabele Kleim Divulgação |
Baixa remuneração, clima adverso e importação pressionam atividade, enquanto produtores aguardam recuperação gradual dos preços no outono
Os primeiros meses de 2026 foram marcados por remuneração abaixo do esperado para os produtores de leite no Rio Grande do Sul. Em muitos casos, o valor pago pelo litro ficou inferior ao próprio custo da atividade. A avaliação é do presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, ao analisar o comportamento do mercado no início do ano e as perspectivas para o setor.
Segundo Tang, janeiro e fevereiro apresentaram um cenário especialmente difícil para as propriedades leiteiras. Conforme o dirigente, a situação se tornou insustentável em diversas fazendas. “Muitos produtores estão recebendo menos pelo litro entregue ao laticínio do que gastam para produzi-lo. Isso obriga o produtor a buscar alternativas para manter a atividade, como vender parte do rebanho ou recorrer a empréstimos para cobrir despesas e, consequentemente, acumulando dívidas”, explica.
Embora a baixa remuneração seja uma realidade nacional, Tang ressalta que, no Rio Grande do Sul, o problema é agravado por fatores climáticos que vêm afetando o setor nos últimos anos. O Estado enfrentou uma sequência de estiagens, intercaladas com períodos de enchentes, o que dificultou a produção de alimento para os animais.
Tang enfatiza que a alimentação do rebanho é um dos principais componentes do custo de produção do leite. “Quando o produtor não consegue produzir pastagem ou silagem suficientes, precisa comprar insumos no mercado, o que reduz ainda mais a margem de lucro da atividade”, explica.
Apesar do cenário negativo no início do ano, o presidente da Gadolando observa sinais de estabilização nos preços. Em fevereiro, segundo ele, a queda nos valores pagos ao produtor já foi menor e, no início de março, há indicação de um leve aumento. “A expectativa é de que a reação se consolide entre abril e junho, quando o preço do leite deve subir gradualmente, impulsionado por fatores de mercado e também por mudanças sazonais no consumo”, projeta.
Entre os fatores mencionados pelo dirigente está o retorno das aulas, que tende a elevar a demanda por produtos lácteos, além da chegada de períodos mais frios do ano. “Outono e inverno normalmente favorecem o consumo de leite e derivados, o que contribui para uma recuperação gradual dos preços”, afirma.
Tang lembra que o comportamento do mercado costuma ser cíclico, com preços mais fracos entre novembro e janeiro e recuperação ao longo do outono. “No entanto, em 2025 esse padrão não se confirmou. Mesmo durante o inverno, período que tradicionalmente garante melhor remuneração ao produtor, os valores continuaram em queda”, aponta.
Para o presidente da Gadolando, esse cenário comprometeu a capacidade financeira das propriedades. “Esses meses de inverno são quando o produtor deveria conseguir formar um caixa para enfrentar o restante do ano. Quando isso não acontece, toda a sustentabilidade da atividade fica comprometida”, destaca.
Outro fator que pode contribuir para reduzir custos neste período é o clima mais ameno. “Com temperaturas mais baixas, diminui o estresse térmico das vacas, o que melhora a produção. Além disso, após a colheita de grãos, muitos produtores conseguem implantar pastagens de inverno, reduzindo gastos com alimentação”, lembra.
Mesmo com essas perspectivas, Tang alerta que o setor segue pressionado por fatores externos, especialmente pelas importações de lácteos. Segundo ele, a entrada de produtos, principalmente da Argentina e do Uruguai, tem impactado negativamente o mercado interno. “Temos pedido medidas do governo para conter temporariamente essas importações e também a aplicação de instrumentos como o antidumping, que está em análise. A entrada desenfreada de leite e derivados tem prejudicado enormemente o produtor brasileiro”, afirma.
Foto: Isabele Kleim, Divulgação
Texto: Artur Chagas, AgroEffective

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