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Levantamentos divulgados na reta final do segundo turno apresentam diferenças nos percentuais, nas amostras e nos métodos de entrevista. Consulta aos registros eleitorais ajuda a separar dados publicados, estimativas estatísticas e possíveis inconsistências que exigem verificação.
Data de publicação: 18 de outubro de 2026
Editorias: Eleições 2026 | Política | Brasil
As pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República entraram no centro do debate público às vésperas do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Levantamentos divulgados entre 13 e 16 de outubro apresentam números distintos para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), além de diferenças na forma de coleta, no tamanho das amostras e na apresentação dos resultados.
Uma análise dos dados publicados e dos registros eleitorais mostra por que a leitura dessas pesquisas exige mais do que observar os percentuais destacados nas manchetes. O número divulgado, isoladamente, não informa toda a metodologia utilizada, nem comprova que um levantamento tenha sido manipulado.
A investigação documental do Correio Gaúcho concentra-se em quatro pontos: a transparência dos registros, a comparabilidade dos resultados, as margens de erro e as diferenças entre votos totais e votos válidos.
1. Pesquisas utilizam métodos diferentes
Os levantamentos nacionais divulgados na semana de 14 a 16 de outubro apresentam diferenças metodológicas importantes.
A pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios, presencialmente, nos dias 13 e 14 de outubro. A margem de erro informada foi de dois pontos percentuais, e o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é BR-00466/2026.
Já o levantamento CNT/MDA, divulgado em 16 de outubro, entrevistou eleitores por meio de entrevistas presenciais. A publicação consultada informa 2.014 entrevistados, enquanto a conferência do número exato de entrevistas deve ser feita no relatório integral e no registro correspondente, BR-00652/2026.
A pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro ouviu 2.154 pessoas presencialmente, entre 10 e 13 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais. O registro informado é BR-08729/2026.
O PoderData/Aya, por sua vez, divulgou levantamento com 3.000 entrevistados, por telefone, entre 13 e 15 de outubro. A margem de erro declarada foi de 1,8 ponto percentual, sob o registro BR-04258/2026.
Os métodos de entrevista, os períodos de campo e os planos amostrais não são idênticos. Por isso, os percentuais de institutos diferentes não devem ser tratados automaticamente como partes de uma única série estatística.
Fontes: Datafolha e compilação de pesquisas e registros eleitorais.
2. O que o registro no TSE comprova — e o que não comprova
A legislação eleitoral exige o registro prévio das pesquisas destinadas à divulgação pública, com informações como contratante, responsável pelo levantamento, período de realização, metodologia, plano amostral, questionário e recursos utilizados.
Esses dados permitem que jornalistas, pesquisadores e cidadãos consultem informações essenciais para avaliar como uma pesquisa foi realizada.
O registro, entretanto, não significa que o TSE tenha certificado antecipadamente os percentuais divulgados. O cadastramento também não equivale a uma auditoria independente de todas as entrevistas ou a uma garantia de que não existam erros.
A consulta deve ser feita no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais do TSE (PesqEle). É necessário conferir o número específico de cada levantamento e confrontar as informações cadastradas com o relatório divulgado pelo instituto.
Uma apuração completa também deve verificar quem contratou a pesquisa, quem a financiou, qual população foi considerada, como os entrevistados foram selecionados e quais procedimentos de ponderação foram aplicados.
Importante: a existência de um registro não prova a exatidão do resultado; da mesma forma, uma diferença entre pesquisas não comprova irregularidade.
3. Por que os percentuais não podem ser comparados sem ajustes
Um dos principais pontos de atenção é a diferença entre intenção de voto total e votos válidos.
A intenção de voto total considera as respostas de todos os entrevistados, incluindo os que declaram voto branco ou nulo e os que ainda não decidiram. Já os votos válidos são calculados excluindo essas categorias, conforme a metodologia adotada para a estimativa.
Na pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro, os resultados publicados foram de 47% para Flávio Bolsonaro e 45% para Lula no total da amostra. Nos votos válidos, os percentuais foram de 51% e 49%, respectivamente.
Na Quaest divulgada em 14 de outubro, os percentuais de intenção de voto total foram de 46% para Flávio Bolsonaro e 44% para Lula, com 9% de brancos e nulos e 1% de indecisos.
Os dois levantamentos não devem ser colocados lado a lado sem informar a base de cálculo e as datas das entrevistas. Além disso, a Quaest não divulgou oficialmente, nesse levantamento, uma estimativa própria de votos válidos; qualquer conversão feita por terceiros deve ser identificada como cálculo externo.
Fonte: Datafolha — levantamento de outubro e Quaest — números e metodologia.
4. Margem de erro não é uma garantia de precisão absoluta
A margem de erro é uma medida estatística associada ao desenho amostral e às condições do levantamento. Ela não deve ser interpretada como garantia de que o resultado verdadeiro necessariamente esteja dentro de uma faixa fixa.
Outros fatores podem influenciar a qualidade das estimativas, como não resposta, seleção dos entrevistados, ponderação, formulação das perguntas e diferenças entre as pessoas que respondem e aquelas que não participam.
Por isso, dois resultados numericamente diferentes podem ser compatíveis com a incerteza estatística dos levantamentos. A avaliação exige considerar também o nível de confiança declarado, a metodologia e o período de coleta.
No caso das pesquisas publicadas na segunda semana de outubro, vários institutos informaram margens de erro próximas de dois pontos percentuais. Esse dado precisa acompanhar os percentuais em qualquer reprodução jornalística, para que o leitor não confunda estimativas com contagem de votos.
5. Uma diferença que merece conferência documental
A documentação pública de uma pesquisa pode aparecer em diferentes formatos: nota para a imprensa, reportagem, tabelas resumidas e relatório técnico completo.
No levantamento CNT/MDA, por exemplo, a reportagem consultada informa 2.014 entrevistados, enquanto o registro precisa ser examinado diretamente para confirmar a amostra cadastrada e eventuais explicações para diferenças entre os documentos.
Uma divergência desse tipo é um ponto de checagem documental, não uma prova automática de erro ou fraude. A apuração responsável exige obter o relatório integral, comparar as informações com o registro oficial e solicitar esclarecimentos ao instituto quando necessário.
O mesmo procedimento deve ser aplicado a qualquer levantamento que apresente divergências em datas, tamanho da amostra, margem de erro, contratante ou forma de coleta.
Até que essas etapas sejam concluídas, não é correto atribuir intenção irregular a uma empresa ou afirmar que um resultado foi adulterado.
6. O que uma investigação completa ainda precisa verificar
Para avaliar de maneira independente a qualidade de cada pesquisa, o Correio Gaúcho deve confrontar os registros oficiais com os relatórios integrais e, quando necessário, ouvir os institutos responsáveis.
Os documentos mais relevantes são:
Questionário completo: permite verificar a formulação da pergunta e a ordem em que os candidatos foram apresentados.
Plano amostral: informa como a amostra foi estruturada e quais critérios foram usados para representar a população.
Relatório de ponderação: esclarece os ajustes estatísticos aplicados às respostas.
Dados sobre o contratante e o financiamento: permitem identificar quem solicitou e custeou o levantamento.
Informações sobre o trabalho de campo: ajudam a esclarecer datas, forma de entrevista, quantidade de participantes e eventuais diferenças entre o registro e a publicação.
Esclarecimentos dos institutos: possibilitam que inconsistências documentais sejam explicadas antes de qualquer conclusão.
Sem a análise integral desses materiais, não há base suficiente para afirmar que exista uma irregularidade generalizada nas pesquisas presidenciais de 2026.
Conclusão: transparência é essencial para interpretar pesquisas
As pesquisas eleitorais são estimativas produzidas a partir de amostras e metodologias específicas. Seus resultados precisam ser apresentados com contexto, datas, margens de erro e identificação clara da base de cálculo.
O registro no TSE oferece um caminho para fiscalizar a transparência das informações, mas não substitui a análise dos relatórios técnicos nem certifica antecipadamente os resultados.
A investigação jornalística deve distinguir divergência estatística, falha documental e eventual infração comprovada. Sem evidências verificáveis, não é possível transformar diferenças entre levantamentos em acusação de fraude.
A apuração permanece aberta à conferência dos relatórios integrais e aos esclarecimentos dos institutos citados.
Fontes consultadas
Datafolha — pesquisa presidencial divulgada em 13 de outubro
Jornal Grande Bahia — resultados, metodologias e registros das pesquisas
Redação Correio Gaúcho
Editor: Cassiano Cortez
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