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| Imagem setcesp.org.br/ |
Setor teme prejuízos bilionários caso impasse sobre o frete avance; alimentos, exportações e abastecimento podem ser diretamente afetados
O Brasil volta a conviver com um fantasma que já provocou uma das maiores crises logísticas de sua história. A possibilidade de uma nova paralisação dos caminhoneiros mobiliza o governo federal, lideranças do transporte e representantes do agronegócio, que acompanham com preocupação as negociações sobre medidas relacionadas ao frete e aos custos da atividade.
Embora ainda não haja uma greve nacional confirmada, a simples ameaça já é suficiente para colocar em estado de atenção uma cadeia econômica que depende quase exclusivamente das rodovias para manter o abastecimento do país.
O agro pode ser o maior prejudicado
Se os caminhões pararem, o primeiro grande impacto deverá ocorrer justamente no campo.
O agronegócio brasileiro movimenta diariamente milhões de toneladas de soja, milho, trigo, arroz, carnes, leite, frutas e insumos agrícolas. Grande parte dessa produção percorre milhares de quilômetros até cooperativas, indústrias, centros de distribuição e portos de exportação.
Qualquer interrupção nas estradas pode comprometer o escoamento da safra, atrasar contratos internacionais e provocar prejuízos milionários em poucos dias.
No Rio Grande do Sul, um dos maiores produtores de grãos, carnes e leite do país, a preocupação é ainda maior. O Estado depende intensamente do transporte rodoviário para levar sua produção aos portos de Rio Grande e aos mercados consumidores de todo o Brasil.
Leite e carnes estão entre os produtos mais vulneráveis
Os reflexos podem ser sentidos rapidamente.
O leite precisa ser coletado diariamente nas propriedades rurais. Sem transporte, milhares de litros podem ser descartados por falta de processamento industrial.
Na cadeia das carnes, frigoríficos também enfrentariam dificuldades para receber animais e distribuir produtos refrigerados, aumentando o risco de perdas econômicas e interrupções na produção.
Já frutas, verduras e hortaliças possuem vida útil reduzida e podem não chegar aos supermercados caso haja bloqueios prolongados.
Exportações correm risco
Outro ponto sensível é o comércio exterior.
O Brasil lidera as exportações mundiais de soja, café, açúcar, carne bovina e carne de frango. Grande parte dessa produção depende do transporte rodoviário até os portos.
Uma paralisação poderia atrasar embarques, gerar multas por descumprimento de contratos internacionais e reduzir a competitividade do país diante de outros exportadores.
Além disso, navios aguardando carga podem elevar os custos logísticos das empresas e afetar toda a cadeia de exportação.
Combustível e frete preocupam o setor
Entre as principais reivindicações dos caminhoneiros estão o aumento dos custos operacionais, especialmente com o diesel, além da necessidade de maior previsibilidade nos valores do frete.
Nos últimos meses, a volatilidade do petróleo no mercado internacional voltou a pressionar os combustíveis, enquanto transportadores afirmam que muitos contratos já não cobrem adequadamente os custos da atividade.
O governo busca alternativas para reduzir as tensões e evitar uma paralisação que poderia comprometer o abastecimento nacional.
Lembranças de 2018 ainda assustam
O setor produtivo lembra com preocupação da greve dos caminhoneiros de 2018, que durou onze dias e provocou uma das maiores crises logísticas da história recente do Brasil.
Na época, faltaram combustíveis, alimentos, medicamentos e diversos produtos em supermercados e postos de abastecimento. O agronegócio registrou perdas expressivas, principalmente nas cadeias de leite, aves, suínos e hortifrutigranjeiros.
Economistas estimaram que o movimento causou prejuízos de bilhões de reais à economia brasileira.
Rio Grande do Sul acompanha o cenário com atenção
No Rio Grande do Sul, cooperativas, cerealistas, frigoríficos e transportadoras acompanham de perto as negociações.
Além da produção agrícola, setores industriais e comerciais também dependem das rodovias para receber matérias-primas e distribuir mercadorias.
Caso a mobilização avance, especialistas alertam que os impactos poderão ser sentidos rapidamente tanto no interior quanto nos grandes centros urbanos.
Governo tenta evitar uma nova crise
Representantes do governo federal mantêm diálogo com entidades do transporte na tentativa de construir soluções que garantam maior equilíbrio entre os custos da atividade e a remuneração dos caminhoneiros.
O objetivo é evitar que o país enfrente uma nova interrupção logística em um momento estratégico para o agronegócio, que segue impulsionando a economia nacional e respondendo por uma parcela significativa das exportações brasileiras.
Enquanto as negociações continuam, produtores rurais, cooperativas e empresas do setor permanecem em alerta. Afinal, em um país onde mais de 60% das cargas são transportadas por rodovias, qualquer paralisação pode gerar efeitos em cadeia, elevando custos, comprometendo o abastecimento e afetando diretamente o bolso dos brasileiros.
Fontes: Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Confederação Nacional do Transporte (CNT), Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ministério dos Transportes.
Cassiano Cortez – Correio Gaúcho

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