À mulher mais poderosa do futebol: a história de Rafaela Pimenta expõe o machismo bilionário por trás da indústria da bola




 

Enquanto Erling Haaland acumula fortunas dentro de campo, uma brasileira comanda silenciosamente uma das maiores operações do futebol mundial. Mas o caminho até o topo foi marcado por humilhações, preconceito e uma batalha diária para conquistar respeito em um dos ambientes mais fechados do esporte.


Durante décadas, as maiores negociações do futebol mundial aconteceram longe das câmeras. Milhões de euros mudavam de mãos em salas fechadas, contratos eram assinados em hotéis de luxo e o destino de grandes estrelas era decidido por poucos homens.


Foi justamente nesse universo que uma brasileira decidiu entrar.

Sem sobrenome tradicional do futebol, sem ex-jogador na família e enfrentando um mercado praticamente exclusivo para homens, Rafaela Pimenta transformou inteligência jurídica, estratégia e discrição em uma das carreiras mais influentes do planeta.


Hoje, ela administra a carreira de Erling Haaland, um dos atletas mais valiosos e mais bem remunerados da atual Copa do Mundo, além de representar diversos jogadores de elite através da agência Tatica, sediada em Mônaco. Também foi reconhecida pela lista Forbes 50 Over 50 Global, consolidando-se como uma das mulheres mais influentes do mundo dos negócios esportivos.


Mas o sucesso esconde uma história que revela um problema estrutural dentro do futebol internacional.


Quando uma negociação terminou em preconceito


Muito antes das redes sociais, das videochamadas e dos aplicativos de mensagens, as negociações internacionais aconteciam por telefone e fax.


Os dirigentes conheciam a competência de Rafaela, mas nunca tinham visto seu rosto.


Foi então que aconteceu um episódio que ela jamais esqueceu.


Depois de meses negociando uma transferência, apresentou-se pessoalmente ao clube.


A reação do diretor foi imediata.


"Você existe mesmo? Achei que você era apenas uma prostituta brasileira."


O relato foi feito pela própria empresária em entrevista à ESPN e rapidamente repercutiu internacionalmente por expor o preconceito enfrentado por mulheres em cargos de liderança dentro do futebol.


Um ambiente que ainda resiste às mulheres


Esse não foi um caso isolado.


Rafaela também revelou que, durante uma negociação no Brasil, após todos deixarem a sala, um dirigente interrompeu a conversa e fez uma proposta de cunho sexual, sugerindo que ela retirasse a blusa.


O episódio nunca foi denunciado publicamente com nomes, mas simboliza uma realidade conhecida por diversas profissionais que atuam nos bastidores do esporte.


Segundo Rafaela, o machismo mudou de forma, mas continua presente.


Hoje ele aparece em comentários velados, tentativas de diminuir sua autoridade e na constante surpresa de dirigentes ao descobrirem que quem conduz negociações milionárias é uma mulher.


O cérebro por trás de bilhões de euros


Quem vê Haaland apenas como uma máquina de fazer gols talvez desconheça que existe um planejamento empresarial extremamente sofisticado por trás de cada decisão.


Rafaela não atua apenas negociando salários.


Ela participa da construção completa da marca do atleta.


Isso envolve:


contratos esportivos;

direitos de imagem;

acordos de patrocínio;

planejamento tributário internacional;

expansão comercial em novos mercados;

posicionamento global da marca pessoal do jogador.


Em entrevistas, ela explica que um atleta moderno deixou de ser apenas um jogador de futebol.


Hoje ele é uma empresa internacional.


Se um cliente deseja expandir sua presença na Ásia, lançar um canal digital ou investir em novos negócios, toda essa estratégia passa por sua equipe.


A sucessora do lendário Mino Raiola


Durante quase duas décadas, Rafaela trabalhou ao lado do italiano Mino Raiola, considerado um dos empresários mais poderosos da história do futebol.


Quando Raiola morreu, em 2022, muitos acreditavam que o império construído por ele perderia força.


O mercado se enganou.


Foi Rafaela quem assumiu a liderança da operação internacional, herdando uma carteira de atletas que incluía nomes como Erling Haaland, Zlatan Ibrahimović, Paul Pogba, Marco Verratti e diversos outros jogadores de elite.


A revolução silenciosa


Enquanto técnicos recebem os holofotes e jogadores estampam capas de revistas, agentes esportivos moldam os rumos do futebol moderno.


Uma negociação mal conduzida pode representar centenas de milhões de euros perdidos.


Uma decisão estratégica pode transformar um atleta em uma marca global.


É exatamente nesse espaço que Rafaela construiu sua reputação.


Ela raramente aparece em entrevistas.


Evita protagonismo.


Prefere que seus clientes sejam as estrelas.


Mesmo assim, tornou-se referência mundial na área.


O que essa história revela sobre o futebol


O caso de Rafaela Pimenta vai muito além de uma trajetória de sucesso.


Ele evidencia como o futebol ainda convive com barreiras históricas relacionadas ao gênero.


Em uma indústria que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano, mulheres continuam sendo minoria em cargos de decisão.


Mesmo ocupando posições estratégicas, muitas ainda enfrentam resistência, desconfiança e preconceito.


A ironia é inevitável.


A mulher que um dia foi reduzida a um estereótipo ofensivo por um dirigente hoje é responsável por negociar contratos de alguns dos jogadores mais valiosos do planeta.


O respeito que antes lhe foi negado acabou sendo conquistado da forma mais incontestável possível: pelos resultados.


Fontes: ESPN Brasil, ESPN Internacional, Forbes, Terra.


Cassiano Cortez

Correio Gaúcho

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