SECA, CALOR E PERDAS: a crise silenciosa do feijão expõe fragilidade do campo gaúcho

 



A reta final da colheita do feijão da primeira safra no Rio Grande do Sul escancara mais do que números abaixo do esperado — revela um sistema produtivo cada vez mais vulnerável às oscilações climáticas e à falta de políticas estruturantes no campo.

Dados do Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar confirmam que a safra foi diretamente impactada por um fator recorrente, mas ainda subestimado: a irregularidade climática. A estiagem registrada a partir da segunda quinzena de janeiro, somada às altas temperaturas, atingiu em cheio o período mais sensível da cultura — o reprodutivo.

O resultado é claro: queda na produtividade, especialmente nas lavouras tardias, e uma produção que não acompanha o potencial estimado no início do ciclo.


 Produção cai e revela dependência do clima

Embora a qualidade dos grãos colhidos seja considerada adequada, o volume produzido ficou aquém do esperado. A produtividade média estadual foi estimada em 1.781 quilos por hectare — um número que, isoladamente, pode parecer razoável, mas que esconde perdas significativas em regiões estratégicas.

Na área de Caxias do Sul, por exemplo, produtores enfrentaram um cenário crítico. A produtividade, que poderia atingir 2.400 quilos por hectare, deve ficar abaixo de 1.800. A quebra está diretamente ligada à falta de chuvas nos momentos-chave do desenvolvimento da planta.

Esse padrão se repete em outras regiões: onde faltou água, faltou produção.


 O problema vai além do clima

A investigação do cenário aponta que o impacto climático não é o único vilão. A baixa adoção de sistemas de irrigação, o alto custo de tecnologias agrícolas e a dificuldade de acesso a crédito rural agravam a situação.

Produtores ouvidos pelo setor relatam que muitos não conseguem investir em infraestrutura para enfrentar períodos de estiagem. O resultado é uma dependência quase total das chuvas — um risco crescente diante das mudanças climáticas.


 Segunda safra: esperança ou novo risco?

A segunda safra de feijão surge como uma possível compensação, mas o cenário ainda é incerto. Segundo a Emater/RS-Ascar, as lavouras estão em fases vegetativas e reprodutivas, com bom desempenho apenas em áreas irrigadas ou beneficiadas por chuvas regulares.

Na região de Ijuí, onde há uso de irrigação, o desenvolvimento é considerado satisfatório. Já em Santa Maria, as chuvas de fevereiro ajudaram a manter a produtividade dentro de níveis aceitáveis.

Mas o contraste é evidente em Soledade, onde a seca comprometeu até mesmo o plantio. A área cultivada caiu drasticamente, e as lavouras ainda enfrentam pragas como ácaros e tripes — favorecidas pelo clima seco.


 Um alerta estrutural para o agro gaúcho

O que está em jogo vai além de uma safra ruim. O cenário expõe uma fragilidade estrutural do sistema produtivo:

  • dependência excessiva do clima
  • baixa resiliência tecnológica
  • dificuldade de acesso a crédito
  • vulnerabilidade a pragas em períodos de seca

A combinação desses fatores transforma eventos climáticos, antes considerados pontuais, em crises recorrentes.


 Conclusão: o campo pede resposta urgente

A safra de feijão 2025/2026 no Rio Grande do Sul deixa uma mensagem clara: produzir está cada vez mais arriscado — e menos previsível.

Sem investimento em irrigação, políticas de apoio ao produtor e estratégias de adaptação climática, o Estado corre o risco de ver culturas tradicionais perderem espaço, produtividade e rentabilidade.

O alerta está dado. A pergunta que fica é: até quando o produtor vai conseguir sustentar sozinho o peso de um sistema que depende, cada vez mais, de um clima que já não é o mesmo?

Redação 

Correio Gaúcho

23/03/2026 20h04

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